Certificação de data centers modulares: por que ela importa e quais normas regem a fabricação

Certificação de data centers modulares: por que ela importa e quais normas regem a fabricação

Um data center modular é um produto industrial. Sai de fábrica, chega desmontado e é remontado no local. Isso cria uma pergunta que catálogo nenhum responde: a unidade entregue tem o mesmo desempenho do protótipo que passou no forno?

A certificação responde isso. E, no Brasil, ela se divide em duas rotas que o mercado costuma confundir.

As duas rotas brasileiras

Sala-cofre segue a ABNT NBR 15247. O protótipo é literalmente queimado e precisa garantir 60 minutos de resistência ao fogo sem perder integridade, mantendo depois temperatura e umidade internas em níveis seguros para os servidores. O tipo A cobre incêndio. O tipo B acrescenta resistência a impactos de queda de escombros. As classes aparecem nos certificados como S60D ou R60D.

Sala segura segue outra lógica. A certificação acontece por componente, com portas corta-fogo conforme a ABNT NBR 6479 e paredes resistentes a chamas com materiais não propagantes conforme a ABNT NBR 10636. O mercado brasileiro pratica tempos de resistência superiores nessa rota, chegando a seis horas em algumas configurações.

O ponto que interessa ao comprador: a sala-cofre entrega um conjunto testado inteiro, com 60 minutos. A sala segura entrega componentes testados individualmente, com tempos que podem ser bem maiores. São critérios diferentes medindo coisas diferentes, e um edital que trata as duas como equivalentes erra nas duas pontas.

Quem certifica no Brasil

Dois organismos de certificação de produto acreditados pelo Inmetro atuam nesse mercado: a ABNT, desde 2007, e a UL do Brasil Certificações, desde 2016.

Ambos trabalham. A sala-cofre do Ministério Público do Mato Grosso do Sul, por exemplo, foi certificada pela UL do Brasil conforme a ABNT 15247.

A certificação da NBR 15247 tem adesão voluntária e se destina a aferir a qualidade do produto e da sua construção.

O que a certificação cobre

A NBR 15247 alcança a célula: paredes, piso, teto e porta. O escopo termina aí. Ar-condicionado, detecção e combate a incêndio, controle de acesso, CFTV, monitoramento ambiental e instalações elétricas e lógicas seguem outras exigências técnicas. Em análise do TCE-PR, registrou-se que a célula não chega a representar 20% da solução.

Quem lê um certificado precisa saber disso. Ele atesta que a estrutura resiste ao fogo. A disponibilidade do data center depende dos outros 80%.

As normas de fabricação

ABNT NBR 15247:2004 define classificação e métodos de ensaio de resistência ao fogo para salas-cofre e cofres para hardware. Ela usa como referência um compilado de normas da própria ABNT, entre elas a NBR 10636, e normas internacionais, em especial a EN 1047.

EN 1047-2 é a norma europeia equivalente, com testes de resistência a impactos, temperatura e umidade frente aos efeitos do fogo. A NBR 15247:2004 foi baseada na EN 1047-2:1999, e ambas tiveram última atualização em 2018, sendo consideradas equivalentes com pequenas diferenças de especificações técnicas.

ABNT NBR 10636-1:2022 cancelou e substituiu a NBR 10636:1989. Ela especifica o método para determinação da resistência ao fogo de paredes sem função estrutural. Paredes contendo portas ou vedadores seguem a NBR 6479.

ABNT NBR 6479 trata do ensaio de resistência ao fogo de portas e vedadores.

ABNT NBR 11515 estabelece os limites de emergência para sobrevivência das informações.

O ensaio é físico e direto. Uma sala em tamanho real entra num forno construído conforme a norma e enfrenta a curva de aquecimento, com temperaturas próximas de 1000°C. Sensores dentro e fora registram o comportamento. A estrutura precisa manter integridade, o aumento de temperatura interno precisa ficar abaixo do limite, e a umidade relativa não pode ultrapassar 85%.

O processo que garante a repetição

Aqui mora o valor da certificação para um produto modular.

A UL do Brasil aplica o Esquema tipo 5 da ABNT NBR ISO/IEC 17067, com avaliação inicial do sistema de gestão do fabricante, ensaios de tipo inicial e avaliação periódica do processo produtivo, tudo realizado junto ao fabricante. A certificadora acompanha a montagem de todas as salas-cofre fornecidas, garantindo que ela seguiu estritamente o que foi verificado no corpo de prova do ensaio de resistência ao fogo, e finaliza exigindo verificação da estanqueidade por meio do ensaio da NFPA 2000.

A ABNT segue o Procedimento Específico PE-047, hoje na revisão 19, de dezembro de 2023, com avaliação da documentação do fabricante e de suas autorizadas, visita técnica às instalações, auditoria de certificação e avaliação inicial da qualidade. O Certificado de Conformidade vale três anos.

O ensaio testa um protótipo. A auditoria de processo garante que a unidade número cinquenta saia igual a ele. Para produto modular, esse segundo passo carrega o peso.

Além da célula

A TÜV Rheinland mantém a Certificação Assistida de Infraestrutura de Data Centers, conforme a norma americana ANSI/TIA-942, com níveis de TR1 a TR4.

O Uptime Institute administra o Tier Standard, com três certificações: Documentos de Projeto, Instalações Construídas e Sustentabilidade Operacional, e classificações de Tier I a Tier IV.

Aplicam-se ainda ISO 9001 para gestão da qualidade, ISO/IEC 27001 para segurança da informação, ISO/IEC 20000-1 para qualidade dos serviços de TI, e ISO 14001 e LEED para gestão ambiental.

O que verificar antes de comprar

Qual organismo emitiu o certificado, e se ele tem acreditação do Inmetro.

Se o escopo cobre o produto, o serviço de manutenção, ou os dois. Essa distinção mudou recentemente: apenas a partir da revisão 15 do PE-047, de maio de 2023, o escopo da ABNT passou a incluir o serviço de manutenção. Antes disso existia somente a certificação da sala-cofre em si.

Qual a rota, sala-cofre ou sala segura, e qual o tempo de resistência efetivo. Sessenta minutos de sala-cofre e 240 minutos de sala segura medem coisas diferentes e atendem cenários diferentes.

A classe de proteção e o tipo.

E o que fica fora do certificado, que é a maior parte da infraestrutura.

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